Quarta Via Política!

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        Abaixo seguem alguns textos/artigos que podem auxiliar na compreensão correta do projeto de uma Quarta Teoria Política – seus pressupostos epistemológicos, seus paradigmas políticos e seu ethos teórico em geral. Em seguida, disponibilizamos o prefácio à primeira edição da obra A Quarta Teoria Política, lançada no Brasil pela extinta Editora Austral.

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(Prefácio à primeira edição brasileira do livro A Quarta Teoria Política).

Por R. Machado:

O Deserto da Pós-Modernidade

Poucas vezes, nas últimas duas ou três décadas, emergiu algum livro cuja leitura, é inevitável admitir, se faz tão necessária para todo indivíduo ou grupo que se afirma como revolucionário e inimigo da globalização quanto A Quarta Teoria Política, de Alexander Dugin.

Na verdade, ao mesmo tempo em que avançamos ao longo das últimas décadas cada vez mais em direção à necessidade de um novo despertar político revolucionário que rompa com as cadeias do lento escorrer em direção ao oblívio e à dissolução, mais parece ter se ressecado toda fonte de uma grande formulação intelectual política.

Situamo-nos perdidos em meio ao deserto do intelecto e do espírito. “O deserto cresce!”, como bem disse o profeta Nietzsche. O deserto cresce e enquanto há aqueles que, inebriados com as sobrecargas sensoriais e as múltiplas (e ilusórias) possibilidades que hoje se apresentam, olham para esse deserto e veem um gigantesco oásis, nós poucos olhamos para o deserto com assombro e compreendemos os perigos que ele oferece. Em meio ao deserto da pós-modernidade, porém, algumas vezes certos tipos de homens, eremitas do intelecto e do espírito, confrontam o deserto e dele retiram a semente de uma inspiração frutífera que, com cuidado e o auxílio de Deus, pode fazer com que o deserto se retraia e o mundo volte a florescer.

“Onde cresce o perigo, cresce também a salvação”, disse o poeta Hölderlin. Significaria isso, então, que apenas nesse momento mais sombrio e nessa hora mais abominável por que passa a humanidade seria possível forjar as armas e construir uma estratégia para lançar a luva em desafio a essa besta leviatânica e derrotá-la, lançando-a de volta às profundezas de onde ela se originou?

Essa pode ser bem a verdade. Pois apenas agora se compreende plenamente os riscos que corremos, o que se pode ainda perder e o que já se perdeu. Estamos hoje com o inimigo à frente e com um paredão atrás de nós. Não há mais possibilidade de recuo. Já temos vindo recuando há mais de um século, nós, as forças da Tradição, os conservadores, os inimigos da modernidade e do desenraizamento, temos aceite compromisso atrás de compromisso, recuando, cedendo posições, estabelecendo acordos, possibilidades de coexistência, declarado neutralidade ou tentado nos apartar da realidade do crescimento do deserto em um solipsismo contemplativo.

A Morte das Ideologias Modernas e a Ascensão do Pós-Liberalismo

Os males presentes no fascismo e no comunismo são óbvios, diretos, claros. Contra esses males sempre que se foi chamado a lutar e a resposta sempre veio com enorme prontidão e vigor. Mas o mal liberal possui uma natureza muito distinta das outras teorias políticas. Ele é mais como um veneno ou moléstia, que lentamente vai minando e solapando o vigor, a vitalidade e o espírito dos povos e civilizações.

O fascismo e o comunismo são ideologias guerreiras, diretas, que confrontam abertamente o inimigo, que declaram suas intenções aos quatro ventos e as perseguem abertamente. Mas o liberalismo é um inimigo malicioso, que faz uso da insídia, da conspiração, da corrupção, dos disfarces. Seu mal é sutil, lento a produzir seus efeitos, muitas vezes invisível e capaz de passar despercebido ou mesmo de perverter o homem a ponto de que ele creia que seus males são benesses. Por isso é ele sempre o inimigo mais perigoso, o inimigo contra o qual sempre há que se ter o máximo cuidado.

Seria essa uma das causas pelas quais, no embate entre as três primeiras teorias políticas da modernidade, o liberalismo foi o vencedor? É muito provável que sim. Se o embate entre as teorias políticas modernas era o embate para se decidir qual dos projetos dessas três teorias políticas assumiria a direção da modernidade, somente aquele projeto que tivesse a essência mais condizente com a modernidade poderia sair-se vencedor.

Como o autor deste augusto livro afirma, a derrota nesse embate deve ser visto como um mérito, haja vista que essa derrota indicaria que um projeto teórico não é o mais compatível com a modernidade, possuindo ainda traços mais ou menos evidentes do mundo da Tradição. De certo, há nas teorias políticas derrotadas, certo grau de clareza solar (mais no fascismo, menos no comunismo), que em um âmbito prático acaba redundando em uma ingenuidade carente de armas para confrontar a malícia e esperteza lunares do liberalismo.

O mundo hodierno, o deserto em que vivemos, é o mundo do liberalismo triunfante. Sobre quase todos os rincões do globo seus tentáculos se estendem. Tendo sido vitorioso no embate ideológico pela modernidade, o liberalismo leva a própria modernidade ao fim, reivindicando para si o Fim da História.

A Cegueira das Múmias Ideológicas

Tendo se erigido enquanto filosofia vitoriosa de um modo tão avassalador, sem deixar de pé qualquer tipo de rival, o que se concretizou após a queda da URSS, o que se vê a partir de então é um fenômeno curioso e, para a maioria, inesperado.

Inaugurando a pós-modernidade enquanto realidade política global, o liberalismo desprovido de rivais reconhecidos, se absolutiza em tamanho grau, que acaba por transcender a si próprio, negando a própria posição como uma teria política entre outras e se estabelecendo como realidade incontornável.

O liberalismo passa então a pós-liberalismo. Se não há mais alternativas políticas ao liberalismo, o liberalismo não é mais então apenas um objeto de escolha, ele se torna um consenso inconsciente. O impulso de desenraizamento e equalização que já residia no liberalismo original e foi posto em prática ao longo da modernidade, chega a seus limites extremos e se metamorfoseia em um impulso de dissolução de todas as coisas. Nações, etnias, culturas, raças, sexos, religiões, todas essas categorias de identidade involuntária, possuem suas delimitações invalidadas e seus conteúdos misturados no caldeirão do politicamente correto e do multiculturalismo.

Como poderiam as defuntas teorias políticas do fascismo e do comunismo, em sua completude e “ortodoxia”, confrontar essa nova metamorfose de seu velho inimigo, quando seus conteúdos estão completamente defasados em relação às realidades da pós-modernidade e do pós-liberalismo? Elas não podem. Como qualquer estrategista amador bem sabe, não é possível confrontar com sucesso um inimigo que não se conhece (o pós-liberalismo), em um terreno que não se conhece (a pós-modernidade).

Diante dos novos desafios apresentados por essa realidade metamorfoseada, os seguidores das velhas e derrotadas teorias políticas da modernidade, verdadeiras múmias vivas, relíquias de um passado que jamais voltará, simplesmente dão de ombros, tentando fingir que esses fenômenos supracitados inexistem e que tudo ainda pode ser explicado por meio de uma redução a algum único fator supostamente universal milagroso (seja nação, raça ou classe). Por mais que haja diversos méritos nos desenvolvimentos teóricos dessas ideologias defuntas, porém, e por mais que elas tenham sido muitas vezes extremamente perspicazes em suas análises sobre a modernidade, se elas não foram capazes de apreender totalmente a modernidade (se o tivessem feito, não teriam sido derrotadas), como elas poderiam fazê-lo em relação a uma nova realidade tão radicalmente distante da que vigia na época de seu florescimento?

Ainda que seja possível encontrar elementos válidos e úteis nessas ideologias, tomá-las em sua totalidade, defender qualquer tipo de ortodoxia fascista ou comunista, é uma fórmula para uma derrota política absolutamente garantida.

A gravidade e a importância da tomada de consciência para esse fato é ainda mais fundamental para um país como o Brasil, no qual nunca houve apropriadamente um desenvolvimento completo de uma terceira teoria política. Ainda que não seja cabível discorrer aqui sobre o desenvolvimento político das três teorias políticas modernas no Brasil, nenhum dos principais movimentos, grupos ou partidos políticos históricos desse país, incluindo aí até mesmo os de caráter dito autoritário, correspondeu às características de uma terceira teoria política. A totalidade das formações políticas brasileiras às quais se atribui o epíteto de “fascistas”, em verdade, não são mais do que movimentos patrióticos liberais ou liberal-conservadores. Ou seja, não conseguem ir muito além de certos elementos ditos “nacionalistas” característicos do liberalismo do século XIX.

Isso torna a compreensão da necessidade de uma nova síntese política antiliberal e antiglobalista, uma quarta teoria política, particularmente dificultosa para o tipo de tradicionalistas e conservadores que existem no Brasil. Isso apesar da obviedade sintética que o pós-liberalismo assumiu no Brasil, pela fusão entre uma política econômica liberal, associada a uma política cultural neomarxista, encabeçada pelo atual partido governante e apoiada não apenas por sua base partidária governista como pela própria oposição.

Livro e Mosquete

Diante dessa “síntese satânica”, verdadeira quimera pós-moderna, os representantes das velhas ideologias não sabem como reagir. Marxistas ortodoxos se desesperam como um suposto retorno do “fascismo”, enquanto liberais ou patriotas burgueses tentam nos alertar sobre o “perigo vermelho” que supostamente estaria assumindo o controle do Brasil.

Nenhuma das grandes formações ideológicas ou grupos políticos insatisfeitos com o status quo consegue identificar com alguma proximidade qual é a natureza das transformações políticas que vem se impondo progressivamente no Brasil desde o retorno da democracia. E por que isso ocorre? Por causa exatamente desse apego a modelos teóricos ultrapassados, que bloqueia essa identificação. E ausente essa capacidade, o máximo que uma força política de oposição pode almejar é adiar por um punhado de anos (como fazem as ditaduras reacionárias) a difusão da decadência e da dissolução.

Pois bem, este livro de Alexander Dugin possui o grande mérito exatamente de fornecer instrumentos teóricos que nos permitam compreender os processos de transformação ideológica pelos quais o mundo vem passado desde a instauração da modernidade e algumas diretrizes e orientações que se mostrarão extremamente úteis para que os autênticos revolucionários apliquem na construção de uma quarta teoria política, segundo suas próprias realidades espaciais.

Ainda que alguns passos preparatórios em direção a uma síntese política antiliberal e antiglobalista já tenham sido dados por uma série de pensadores identitários, nacional-revolucionários, nacional-bolcheviques, conservadores revolucionários ou tradicionalistas, ocorre que nunca antes veio à luz uma obra que trate de modo tão completo e consciente dessa questão e que proponha passos mais largos e seguros em direção a essa nova síntese, distintos dos passos tímidos dados nas tentativas de formulação de outras teorias políticas alternativas.

Assim, finalmente deixo-os para que examinem por si próprios a abordagem inovadora do autor, com a ressalva de que todo esforço será inútil caso isso não seja feito com um espírito de absoluta abertura intelectual.

(Rio de Janeiro, 2012).

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