Da terceirização da paternidade

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DA TERCEIRIZAÇÃO DA PATERNIDADE

Recentemente, no Rio de Janeiro, a Polícia Civil começou uma investigação a respeito de três supostas vítimas do tal jogo “Baleia Azul”, que consiste numa série de desafios impostos em grupos secretos de redes sociais por psicopatas do outro lado da tela, que exigem o cumprimento por parte da vítima de uma lista de 50 tarefas diárias, que vão desde assistir filmes de terror pela madrugada, passando por coisas como andar em locais perigosos (como o topo de edifícios) e a automutilação, até o desafio final, que nada mais é do que o suicídio, para o qual as vítimas são preparadas ao longo de todo o jogo.

Na Rússia o jogo já fez três vítimas fatais e há registros em diversas localidades de vítimas não letais, que teriam se mutilado e arriscado suas vidas pelos desafios. O cumprimento de todas as tarefas deve ser comprovado por parte da vítima através de fotos e vídeos divulgados em grupos secretos, sob ameaça da administração do grupo em caso de descumprimento.

Numa realidade não muito distante, a febre da tal série da “13 Reasons Why” parece estar intimamente associada com o suicídio de uma jovem em Itajaí, SC. Pouco antes do ato, em sua última postagem numa rede social, a mesma teria atualizado seu status dizendo estar assistindo à série. Há também indícios de ligação entre a mesma série e diversos outros casos de suicídio, ainda sem um laudo conclusivo ou evidência tão nítida.

A série conta a história de uma adolescente que, após diversas experiências traumáticas, desde humilhação em ambiente escolar até estupro, decide tirar a própria vida, depois de ter concluído que esta seria a única solução possível para “apagar” tais manchas de sua vida. O que pode ser para uns uma mera temática poética a ser explorada – afinal, quantas renomadas obras literárias não exploraram o suicídio de forma brilhante? Goethe que o diga! -, pode ser simultaneamente fonte de perdição total para muitos jovens nitidamente problemáticos, já repletos de tendências depressivas e suicidas, que são enaltecidas e incentivadas por qualquer sinal de glamourização deste ato demoníaco.

Afinal, o que está acontecendo com nossa juventude? Por mais bizarramente estúpido que possa parecer, jogos online e séries de TV estão levando a séries de suicídio de pessoas comuns. Quem está assistindo ou jogando não são crianças miseráveis que não tem o que comer. Nem adolescentes prostituídas e viciadas pelas ruas de uma grande cidade. Muito menos jovens que perderam seus lares num conflito armado e perderam seus parentes precocemente. Não.

São pessoas “normais”. De condições financeiras minimamente razoáveis e sem grandes questões que “justificariam” uma atitude desesperada como o suicídio (que, não se enganem, também ocorre massivamente em todos os casos citado no parágrafo anterior). Haveria então algo de errado em nosso padrão de normalidade? Haveria algum tipo de distorção do aceitável, do correto e do belo?

Bom, não precisamos ir muito longe. A temática do suicídio já foi explorada aqui por diversas vezes e não rasamente. Já é de conhecimento público e notório a íntima ligação de questões sócio-econômicas com transtornos psíquicos e, principalmente, espirituais em pessoas comuns. Afinal, que razão tem para não se lançar no asfalto alguém que, vendo diante de si uma infinidade de carros em alta velocidade, dispostos a matar para não perder o horário de trabalho, se encontra sem dinheiro, precisando matar um leão por dia para ter o que comer, e que vive sob constante risco, desde ser demitido de um subemprego instável até ser assaltado e perder o pouco que ganhou, e que ao mesmo tempo não crê em absolutamente nada acima da matéria, sem qualquer esperança em uma Salvação ou qualquer espécie de transcendência?

Em paralelo, há uma questão muito mais profunda a ser explorada. A verdadeira terceirização das almas de nossas crianças. Pais preocupados em botar a comida na mesa já foram superados por pais preocupados em fornecer a melhor escola, pagar o melhor curso de inglês e comprar o melhor celular para o filho no fim do mês. Para isso a pessoa deve trabalhar. E não é pouco. Num mundo em que quem trabalha muito ganha pouco, quem quer comprar muito deve logicamente trabalhar mais. Mais tempo fora de casa, menos tempo para os filhos. O resultado são crianças terceirizadas, seja nas mãos de babás desconhecidas ou de instituições de ensino dispostas a entupir a cabeça de um anjo inocente com todo tipo de aberração moderna. Assim, a presença dos pais é terceirizada para a escola, para a TV, para a internet, para as séries e jogos…

Uma criança com acesso livre à internet é refém de todo tipo de aberração, desde o estupro filmado da pornografia (que é 98% da rede) até séries e jogos que romantizam e incentivam práticas suicidas. O resultado são crianças crescendo mentalmente doentes. Absolutamente deformadas de mente e espírito. Jovens que não tardam em apresentar tendência a toda sorte de vícios e transvios. Uma geração que não entende seu próprio sentido em existir. Que não crê, não possui bases espirituais para pisar em um mundo tão absurdamente material.

Diversos desses jovens tornam exteriores suas patologias mentais e espirituais nos círculos de amigos e no ambiente escolar. Alguns através do bullying, criando um exército de agressores psicopatas e vítimas traumatizadas e acovardadas, com fortes tendências ao revanchismo e à sociopatia.

Ou seja, vivemos num mundo doente, com pessoas doentes e crianças expostas a toda sorte de doenças. Um mundo que se esqueceu do mínimo, do básico, do natural, do correto, do belo e do Sagrado. Um mundo que trocou Deus pelo ídolo de ouro e que oferece suas crianças em sacrifício. Presenciamos o surgimento de uma geração de bárbaros redivivos.

Automutilação como atividade comum em idade escolar, drogas como rito de iniciação juvenil, crianças viciadas em pornografia e acostumas desde cedo à violência sexual, jovens suicidas e assassinos. É isso que pais que trabalham 12 horas por dia conseguem quando tentam criar advogados, médicos e engenheiros.

Qualquer romantização do suicídio é um problema de dimensões sociais gravíssimas num mundo de crianças e jovens desestruturados. Um adolescente de 14, 15 e 16 anos é tão vulnerável quanto um bebê quando o tema se remete a práticas auto-deletérias como mutilação e suicídio. E é por isso que o ESTADO deve intervir por todos os meios possíveis, se valendo inclusive da censura, caso necessário seja. Os pais só terceirizam seu dever porque o Estado o faz anteriormente.

«Desde a mais terna idade abastecei as crianças de armas espirituais e ensinai-as a persignar-se» (Homilia 12, 7 sobre a Primeira Carta aos Coríntios)

 

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